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Carta de Peña Esclusa aos jovens

12 August 2010

Versión en español

Queridos jovens:

Ao se completar um mês de meu injusto encarceramento, senti o desejo de me comunicar com vocês, na certeza de que minhas palavras lhes poderão ser úteis.

A maior aspiração de todo ser humano – especialmente intensa nos jovens – é alcançar a felicidade. Porém, segundo minha experiência pessoal, esta se encontra da forma que poderíamos chamar de misteriosa.

Dado que nosso corpo é animal, mas nossa alma é angelical, existem tendências contrapostas dentro de nós. A parte animal nos tenta a buscar a felicidade nos aspectos materiais, como o são os prazeres, o dinheiro, a satisfação egoísta, etc.

Esta foi a opção que eu escolhi na minha juventude. A Venezuela era um país pujante, havia estabilidade política e dinheiro em abundância, e todo profissional universitário tinha seu futuro econômico assegurado. Assim que, recém graduado da Universidade Simón Bolívar, já era dono de minha própria empresa, tinha dinheiro, propriedades, carro e ao cabo de poucos anos, inclusive até de um aviãozinho.

Dediquei-me ao trabalho, ao desporte (obtendo triunfos para a Venezuela em inúmeros campeonatos de artes marciais), às festas, às viagens de prazer e, enfim, desfrutar a vida. Entretanto, em que pesem as aparências, não era feliz, sentia um grande vazio dentro de mim.

Não me sentia satisfeito desfrutando, quando ao meu redor observava tanta pobreza e tantas diferenças sociais. Além disso, compreendi que o sistema democrático venezuelano era insustentável se não se fizessem mudanças fundamentais.

Em que pese a aparente bonança, produto dos lucros petroleiros, a Venezuela estava se desmoronando moral e economicamente. Isto tornou-se evidente em fevereiro de 1983, quando se produziu a primeira desvalorização do bolívar, o que se conheceu como a “sexta-feira negra”.

Ao completar os trinta anos – depois de passar por uma crise existencial, derivada daquelas reflexões – cometi o que qualquer um consideraria uma “loucura”: vendi tudo o que tinha, decidi me dedicar à política e comecei a elaborar um projeto capaz de converter a Venezuela em uma potência industrial, para o qual estudei as experiências históricas dos Estados Unidos, Alemanha e Japão, assim como o caso exitoso do Plano Marshal, que serviu para reconstruir a Europa depois da Segunda Guerra Mundial.

Estava convencido de que o bem-estar que havia observado nos Estados Unidos, Europa e outros países que havia visitado durante minhas viagens, não podia ser propriedade exclusiva de outras nacionalidades. Se eles haviam podido alcançar o desenvolvimento, o que nos impedia de consegui-lo também?

Confesso que os primeiros anos de minha atividade política foram muito duros e cheios de incompreensão. Todavia, finalmente comecei a experimentar – embora que levemente – um sentimento de plenitude até esse momento desconhecido para mim, o qual me animou a seguir adiante, em que pese as dificuldades. O sentimento de plenitude foi-se incrementando com o passar do tempo, à medida em que avançava na minha preparação intelectual e obtinha alguns incipientes ganhos políticos.

Afortunadamente, consegui uma maravilhosa mulher que compartilhava de minha “loucura” pela Venezuela. Casamo-nos, tivemos três filhas e há pouco completamos 20 anos de um casamento estável, muito frutífero e cheio de amor. Este apoio foi fundamental para continuar meu caminho com perseverança e firmeza.

Quando o senhor Chávez chegou ao poder em 1998, eu já contava com 44 anos. Havia alcançado a maturidade política e intelectual suficiente para enfrentar com êxito seu projeto castro-comunista, como com efeito vim fazendo. Modéstia a parte, tenho sido tão exitoso em meu trabalho que não restou a Chávez outro remédio que me encarcerar, para tratar – sem conseguir – de frear minhas iniciativas.

Paradoxalmente, estes últimos doze anos, embora carregados de problemas, foram os mais felizes de minha vida, sem renegar os anos anteriores. Certamente me enche de tristeza ver meu país se destruindo, porém, em meio dessa tragédia, sou feliz porque não vivo para me satisfazer a mim mesmo, senão para fazer o bem à minha pátria, à minha família e aos meus amigos.

E justamente nisso consiste a verdadeira felicidade: em esquecer-se de si mesmo (ao fim e ao cabo somos seres mortais) e se entregar a uma causa transcendente, servindo aos demais e construindo o bem comum.

Com isso não quero censurar os prazeres que a vida proporciona, senão afirmar que estas diversões ganham outro sentido – mais humano e verdadeiro – quando estão orientadas segundo uma causa superior.

Atualmente só se percebem problemas. Existe um descontentamento e um desânimo generalizados e, pior ainda, o futuro parece truncado. Entretanto, visto desde uma perspectiva diferente, a Venezuela de hoje lhes dá oportunidade de assumir maiores desafios e responsabilidades, de se preocupar por assuntos transcendentes, de lutar por seu futuro, pelos de seus seres queridos, e pelo de todos os seus compatriotas. Enfim, lhes permite orientar sua vida para o conteúdo angelical de sua alma, em vez de dedicá-la a satisfazer a parte animal que jaz no corpo.

Comentava no início desta carta que a felicidade se consegue de maneira misteriosa. Exemplo disso é minha situação atual: supostamente eu deveria estar triste e ressentido porque me prenderam injustamente, acusando-me de um horrendo delito que não cometi e, entretanto, ocorre justamente o contrário. Nunca havia me sentido tão orgulhoso, tão útil à minha pátria e tão contente comigo mesmo, por ter atuado com patriotismo e com retidão. Sem dúvida, sou um homem feliz e plenamente realizado.

Essa – meus queridos jovens – é a lição que queria transmitir-lhes hoje. A felicidade se encontra quando a vida é orientada a um fim superior.

Sejam felizes, porém construindo o bem. Amem sem limite, porém de forma organizada. Respeitem e queiram bem aos seus parceiros, procurando o bem-estar deles mais do que o seu próprio. Riam às gargalhadas, porém ao mesmo tempo dediquem-se ao próximo. Estudem muito, mas não por obrigação, senão pelo prazer de aprender. Sejam valentes, mas não temerários. E, enfim, desfrutem a vida com alegria, mas também cumpram com a vocação que Deus pôs em seus corações.

Finalmente, quero enviar-lhes uma mensagem de esperança e otimismo. A triste situação política que o país vive é temporária. Logo se abrirão novos caminhos para os venezuelanos. Ponham sua fé em Deus e sua confiança na pátria que os viu nascer. Prometo-lhes um futuro melhor.

Queridos jovens, desde meu “irmão cárcere” lhes reitero: Não tenham medo! Ânimo, tenham esperança!

Alejandro Peña Esclusa
Prisioneiro político

Presidente de UnoAmérica
www.unoamerica.org

Presidente de Fuerza Solidaria
www.fuerzasolidaria.org

Tradução: Graça Salgueiro